Saúde Mental: Por Que Resistimos em Buscar Ajuda?

O Paradoxo da Saúde Mental

Imagine uma pessoa que sente dores constantes no peito, tem crises de falta de ar até para tomar banho, vive exausta e ofegante.

Os colegas de trabalho notam a mudança. Os familiares se preocupam. Os amigos aconselham: "Você precisa procurar um médico".

Mas ela resiste, minimizando a gravidade dos sintomas. Diz que está tudo bem, que é só estresse, que vai passar.

Foge do assunto, evita a consulta, diz que os remédios são fortes, ou que vão lhe fazer mal. À primeira vista, parece impensável. Mas é exatamente isso o que acontece, com frequência assustadora quando o assunto é saúde mental.

A Demora em Buscar Ajuda: Um Problema Comum

Na prática psiquiátrica, é comum recebermos pacientes que convivem há anos com sintomas de depressão, ansiedade, irritabilidade, insônia, crises de choro ou esgotamento. No caso do Transtorno de Ansiedade Generalizada, estima-se que a média de tempo entre o início dos sintomas e o início do tratamento adequado seja de 8 a 10 anos.

No caso da depressão, esse tempo costuma variar entre 4 e 8 anos — e metade das pessoas com depressão nunca chega a receber um cuidado apropriado.

Esses pacientes costumam chegar ao consultório não no início do sofrimento, mas após crises que se tornam insustentáveis: quando o marido ou a esposa ameaça o divórcio, após um episódio de pânico em público, depois de uma demissão inesperada — ou, nos casos mais graves, quando começam a causar sofrimento a quem amam ou passam a considerar o suicídio como única saída.

Mas se o sofrimento é tão intenso e/ou os prejuízos são tão notórios, por que demoram tanto para aceitar ajuda de um profissional de saúde mental?

Por Que Resistimos? As Barreiras Invisíveis

A resposta, como quase tudo na saúde mental, é complexa. Existem diversas razões que levam uma pessoa a resistir a procurar ajuda — e elas se entrelaçam, somam-se, criam barreiras invisíveis e dolorosas.

O Peso do Estigma

O medo do rótulo, da vergonha, da exclusão. A ideia de que "só os fracos precisam de ajuda", ou de que o adoecimento mental é "mimimi", coisa de preguiçoso, de gente fraca, ou o clássico "Psiquiatra pra quê? Eu não sou louco".

Muitas vezes, esse preconceito nem é declarado, mas está entranhado na forma como a pessoa aprendeu a enxergar o sofrimento psíquico — algo a ser disfarçado, escondido, aguentado em silêncio.

A Negação como Defesa

A recusa em aceitar que algo mudou. Que aquele cansaço constante não é normal. Que a irritabilidade que afasta as pessoas pode ser sinal de adoecimento. Que aquele vazio persistente não é "frescura".

Negar é mais fácil, mais rápido, mais confortável e funcionará por um tempo, que será curto e custoso. Às vezes, a dor e a vergonha de encarar uma verdade é tão profunda que preferimos suportar o sofrimento silencioso, repetir padrões destrutivos ou afastar quem amamos.

É como se tapássemos os ouvidos diante de um alarme de incêndio, esperando que o silêncio desapareça com o fogo. Em alguns casos, essa resistência é tamanha que o sujeito segue se autodestruindo e sofrendo só para não ter que assumir em voz alta aquilo que já sabe — Em certas situações, preferimos morrer a ter que encarar a verdade.

Falta de Informação

Outros simplesmente não sabem. Nunca ouviram falar que tristeza profunda pode ser sintoma de depressão, que nem toda depressão é melancólica e pode se apresentar apenas como uma perda da capacidade de sentir prazer ou motivação, que crises de raiva podem estar ligadas à ansiedade, nem mesmo estão cientes da íntima relação entre corpo e alma — Muitas doenças podem ser tanto causa como consequência de transtornos mentais, e se a alma sofre, o corpo padece.

Crenças Culturais e Religiosas

Essas ideias, repetidas ao longo da vida por familiares e conhecidos, ou mesmo por discursos sociais enviesados, criam uma rede de equívocos que afasta o paciente do cuidado.

Em algumas famílias ou comunidades, as crenças culturais ou religiosas podem reforçar ainda mais essa resistência, ao atribuírem o sofrimento emocional a falhas morais, "falta de Deus" ou influência espiritual e, embora a espiritualidade possa ser uma grande aliada no processo terapêutico, quando se transforma em obstáculo para buscar ajuda, ela deixa de elevar, amparar e consolar, passando a isolar.

É preciso abrir espaço para um entendimento mais amplo: o sofrimento psíquico não exclui a fé, e o cuidado emocional não diminui a espiritualidade. Pelo contrário — muitas vezes, eles se fortalecem mutuamente.

O Hábito do Sofrimento Silencioso

No início, o paciente vai se habituando com as angústias. Vai se tornando parte da paisagem, como aquela "dorzinha" crônica que a pessoa aprende a ignorar.

Como disse o filósofo, não há nada de tão absurdo que o hábito não torne aceitável. E assim o tempo passa…

O sofrimento silencioso vai gritando cada vez mais alto, os prejuízos se acumulam e doença não tratada vai roubando energia, relações, oportunidades. Até que, inevitavelmente, o paciente compreende a necessidade de mudança — ou simplesmente cansa de sofrer.

O Papel de Familiares e Amigos

Para quem está do lado de fora — familiares, amigos, colegas — assistir a esse processo pode ser igualmente doloroso.

Ver alguém que amamos se perdendo em um sofrimento que não reconhece, recusando ajuda que poderia aliviar, é angustiante. Nessas horas, o impulso natural é tentar convencer, insistir, argumentar. Mas, muitas vezes, o que mais ajuda não é a urgência em apontar a solução, e sim a constância de quem permanece ao lado.

Quando falamos "do outro para o outro" invariavelmente a pessoa ergue suas defesas e se fecha ao diálogo. Mostrar a sua preocupação sem cobrança, oferecer escuta sem julgamento, validar o que o outro sente, apresentar informações com clareza e, quando possível, propor que conversem juntos com um profissional — tudo isso pode ser eficaz para abrir espaço à ideia de ajuda. O tempo da ajuda nem sempre é o mesmo da compreensão.

Mas quando os dois se encontram, a presença afetuosa de alguém pode ser o fio que puxa o início da mudança.

Buscar Ajuda: Um Ato de Coragem

Buscar ajuda não é sinal de fraqueza, nem de descontrole. É sinal de coragem — e também de humildade.

Humildade para reconhecer os próprios limites, para admitir que algo não vai bem e que não é preciso enfrentar tudo sozinho.

Tratar da saúde mental é um gesto de cuidado consigo e com os que nos cercam. Todos nós, em algum momento da vida, precisaremos de apoio — e reconhecer isso é profundamente humano.

E, aos que ainda se mantêm convictos de que saúde mental é coisa de louco, encerro perguntando: loucura não seria ter um problema... e negar ajuda?

Sobre o autor

Dr. André Belluci Villani

Artigo escrito por Dr. André Belluci Villani, médico psiquiatra (CRM 218.426 SP | RQE 124.128) com formação pela FAMEMA e residência médica em Psiquiatria pela FAMECA/UNIFIPA. Revisado pela equipe médica da Blumei Psiquiatria.

Referências

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Perguntas Frequentes

Por que as pessoas demoram tanto para buscar ajuda para problemas de saúde mental?

A demora pode ocorrer devido a vários fatores combinados, como o estigma social associado a transtornos mentais, a negação do problema, a falta de informação sobre os sintomas e tratamentos, e crenças culturais ou religiosas que desencorajam a busca por ajuda profissional.

Qual o papel do estigma na resistência em procurar tratamento psiquiátrico?

O estigma gera medo de ser rotulado, vergonha ou exclusão. Ideias como "buscar ajuda é fraqueza" ou "psiquiatra é para loucos" fazem com que muitas pessoas escondam seu sofrimento e evitem o tratamento para não serem julgadas.

Como amigos e familiares podem ajudar alguém que resiste em buscar tratamento?

Em vez de insistir ou pressionar, é mais eficaz oferecer apoio constante, escuta sem julgamento e validar os sentimentos da pessoa. Mostrar preocupação genuína, apresentar informações claras sobre saúde mental e, se possível, oferecer-se para acompanhar a uma consulta podem ajudar a quebrar a resistência.