Classificação dos Transtornos Mentais: Como a Psiquiatria Organiza o Sofrimento Psíquico

Conteúdo Educativo: As informações apresentadas têm caráter informativo e não substituem a consulta médica especializada. Para diagnóstico e tratamento, procure um médico psiquiatra.

A psiquiatria tem avançado significativamente na forma de descrever e compreender o sofrimento mental. Mas mesmo com décadas de desenvolvimento, algumas perguntas fundamentais seguem em aberto — e voltam a ser discutidas com força.

Recentemente, um estudo publicado na revista científica JAMA Psychiatry reacendeu uma dessas discussões: afinal, o que exatamente são os transtornos mentais e como devemos classificá-los? [1]

Pode parecer uma questão distante do consultório ou da experiência de quem busca ajuda. Mas ela influencia diretamente a forma como compreendemos o sofrimento psíquico, conduzimos pesquisas e organizamos tratamentos. E, no fundo, diz respeito àquilo que cada pessoa traz de singular quando se senta diante de um profissional.

Por que as classificações são importantes na psiquiatria?

Assim como em outras áreas da medicina, a psiquiatria utiliza sistemas de classificação para organizar o conhecimento sobre as diferentes formas de sofrimento mental. Essas classificações ajudam profissionais a descrever quadros clínicos, comunicar diagnósticos e desenvolver estudos científicos.

Mas afinal, quais são esses sistemas — e quais são os seus limites?

O DSM-5: referência diagnóstica internacional

Uma das classificações mais conhecidas é o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5), desenvolvido pela American Psychiatric Association. Ele descreve os transtornos mentais a partir de conjuntos de sintomas que costumam ocorrer juntos, permitindo que profissionais utilizem uma linguagem comum ao discutir diagnósticos e tratamentos.

Apesar de sua ampla utilização, o DSM-5 tem limitações reconhecidas pela própria comunidade científica. Uma questão central, discutida por Jablensky (2016) entre outros autores, é que a maioria dos transtornos mentais carece de evidências de separação por fronteiras naturais — o que levanta dúvidas sobre até que ponto as categorias diagnósticas representam entidades distintas ou construtos úteis para a prática clínica [7].

CID-11: a classificação utilizada no Brasil

No Brasil, outra classificação amplamente utilizada é a Classificação Internacional de Doenças — atualmente em transição do CID-10 para o CID-11, elaborada pela Organização Mundial da Saúde. A CID é utilizada em praticamente toda a medicina e está muito presente na prática diária, especialmente em atestados médicos, laudos e registros de saúde.

Um estudo comparativo recente entre os dois sistemas mostrou áreas de convergência, mas também divergências persistentes na forma como organizam os transtornos mentais [8]. Enquanto o DSM costuma oferecer descrições clínicas mais detalhadas, a CID tem uma função mais ampla de padronização diagnóstica para sistemas de saúde e documentação médica.

Essas classificações tiveram um papel fundamental no desenvolvimento da psiquiatria contemporânea. No entanto, com o tempo, alguns limites desse modelo começaram a se tornar mais evidentes [7] — especialmente quando confrontados com aquilo que observamos no dia a dia do consultório.

Quando a experiência clínica desafia as categorias diagnósticas

Na prática clínica, é bastante comum encontrar pacientes cujos sintomas não se encaixam perfeitamente em um único diagnóstico. Muitas vezes, uma mesma pessoa apresenta características que aparecem em diferentes categorias diagnósticas — e é nesse ponto que a complexidade da experiência humana começa a ultrapassar as molduras dos manuais.

A comorbidade: fronteiras mais porosas do que parecem

Por exemplo, alguém pode apresentar sintomas associados tanto ao Transtorno Depressivo Maior quanto ao Transtorno de Ansiedade Generalizada. Esse fenômeno, conhecido como comorbidade, é bastante frequente na psiquiatria.

Um estudo dinamarquês de Plana-Ripoll et al. (2019), que acompanhou cerca de 5,9 milhões de pessoas ao longo de 16 anos, demonstrou que a comorbidade entre transtornos mentais é amplamente presente e persistente ao longo do tempo, sugerindo que as fronteiras categóricas entre os diagnósticos são mais porosas do que os manuais indicam [6].

A singularidade de cada pessoa

Outro aspecto que chama atenção é a grande variabilidade entre pacientes com o mesmo diagnóstico. Duas pessoas que recebem o mesmo rótulo diagnóstico podem ter histórias, sintomas e trajetórias clínicas bastante diferentes. Cada uma carrega uma configuração única de experiências, vínculos e formas de lidar com o sofrimento.

Dados empíricos reforçam essa observação clínica. Um estudo de Spiller e colaboradores (2024), com mais de 150 mil participantes, investigou quais combinações de sintomas realmente aparecem nos pacientes, entre todas aquelas que os sistemas diagnósticos permitem.

Os resultados mostram que, embora existam muitas combinações possíveis, a maioria delas quase não ocorre na prática. Esse dado varia conforme o transtorno analisado: em alguns casos, cerca de 41,7% das combinações possíveis são raras (ocorrendo em menos de 1% dos pacientes), enquanto em outros esse número chega a 99,8%. Ou seja, dependendo do transtorno, uma parte, e às vezes quase a totalidade, das combinações teoricamente possíveis praticamente não aparece na vida real.

Por outro lado, um número muito pequeno de combinações se repete com frequência. Esse resultado também varia conforme o transtorno analisado: em alguns casos, as combinações mais comuns concentram cerca de 33,1% dos pacientes, enquanto em outros chegam a reunir até 78,6%. Em todos os cenários, porém, chama atenção o fato de que apenas 1% das combinações possíveis já reúne uma parcela significativa dos participantes.

Esses achados sugerem que o sofrimento psíquico não se distribui de forma aleatória: ele tende a se organizar em padrões relativamente consistentes — sem deixar de ser profundamente singular em cada pessoa [2].

Essas observações levantam uma questão importante: talvez os transtornos mentais não funcionem exatamente como as doenças que estamos acostumados a ver em outras áreas da medicina. Talvez seja necessário um olhar que vá além da categoria — um olhar que acolha a singularidade.

O que propõe o estudo da JAMA Psychiatry?

O artigo “Mental Disorders as Homeostatic Property Clusters: A Narrative Review”, publicado na JAMA Psychiatry por Eiko I. Fried (2026), propõe um modelo conceitual para repensar essa questão — e o faz a partir de uma analogia reveladora com a biologia [1].

O autor observa que a classificação das espécies biológicas enfrentou, ao longo de séculos, dificuldades muito semelhantes às da psiquiatria. Após Darwin, os biólogos abandonaram a ideia de que espécies seriam categorias fixas encontradas na natureza e passaram a compreendê-las como conjuntos de propriedades homeostáticas (Homeostatic Property Clusters — HPC): conjunto de características que tendem a ocorrer juntas porque a presença de algumas propriedades favorece a presença de outras [1].

É uma ideia que ressoa com o que vemos no consultório. Assim como dois animais da mesma espécie podem diferir em aspectos importantes, duas pessoas com o mesmo diagnóstico raramente são iguais. As associações entre as características são probabilísticas, não determinísticas — o que leva a agrupamentos imperfeitos e zonas cinzentas entre os diagnósticos.

Fried adapta esse conceito para a saúde mental: em vez de imaginar cada transtorno como uma entidade única e bem delimitada, os transtornos mentais podem ser entendidos como conjuntos de características que tendem a ocorrer juntas, formando padrões relativamente estáveis de sofrimento psíquico.

Essas características podem incluir sintomas, formas de funcionamento psicológico, aspectos biológicos e experiências de vida. Quando diferentes fatores interagem ao longo do tempo, eles podem criar configurações relativamente persistentes de funcionamento mental — aquilo que chamamos, na prática clínica, de transtornos mentais.

Um aspecto particularmente importante do modelo HPC é a ideia de que os diagnósticos psiquiátricos não são simplesmente “descobertos” na natureza, como se existissem de forma pronta e bem delimitada. Em vez disso, eles são formas de organizar uma realidade complexa, composta por múltiplas características que se combinam de diferentes maneiras. Como observa Fried, isso não torna os transtornos mentais menos reais, da mesma forma que, no passado, modelos antigos da astronomia não tornavam estrelas e planetas menos reais. O que muda é a forma de descrevê-los e organizá-los [1].

Isso implica reconhecer que pode haver mais de uma maneira, cientificamente válida, de classificar os transtornos mentais — e que diferentes classificações podem ser mais úteis dependendo do contexto, seja na prática clínica, na pesquisa ou na organização dos sistemas de saúde. Essa perspectiva ajuda a compreender por que os limites entre diferentes diagnósticos nem sempre são tão claros e por que a experiência de cada paciente pode ser tão singular.

Novos modelos para compreender a complexidade do sofrimento mental

Nos últimos anos, diferentes linhas de pesquisa têm buscado novas maneiras de estudar a psicopatologia. Não para substituir o que já existe, mas para ampliar o leque de compreensão. Fried (2026) situa o modelo HPC como um meta-framework, uma estrutura, que conecta e integra várias dessas iniciativas [1] — o que ajuda a perceber que elas não são propostas concorrentes, mas olhares complementares sobre o mesmo fenômeno.

HiTOP: uma taxonomia dimensional

Uma dessas propostas é o Hierarchical Taxonomy of Psychopathology (HiTOP), desenvolvido por Kotov e colaboradores (2017). Em vez de categorias rígidas, o HiTOP organiza os sintomas em dimensões mais amplas do funcionamento psicológico — como espectros internalizante, externalizante e de transtornos do pensamento [3].

Essa abordagem reconhece que os sintomas existem em um continuum, e não como entidades discretas de “tudo ou nada”. De certa forma, respeita algo que a prática clínica já intui: que o sofrimento não cabe em caixas fechadas.

RDoC: a perspectiva neurobiológica

Outra iniciativa é o Research Domain Criteria (RDoC), desenvolvido pelo National Institute of Mental Health (NIMH) (2010). O RDoC procura investigar os transtornos mentais a partir de processos psicológicos e neurobiológicos fundamentais — como sistemas de valência negativa, valência positiva, sistemas cognitivos e processos sociais, entre outros [4].

O objetivo é construir uma base mais precisa para a chamada “medicina de precisão” aplicada à psiquiatria — uma ambição que, embora ainda em desenvolvimento, aponta para um futuro de tratamentos cada vez mais individualizados [4].

Abordagem de redes: quando os sintomas se alimentam mutuamente

Há ainda abordagens que estudam como os próprios sintomas podem interagir entre si, formando redes dinâmicas de funcionamento mental. Proposta por Borsboom (2017) e publicada na revista World Psychiatry, essa teoria sugere que os transtornos mentais emergem da interação causal direta entre sintomas — e não de uma “doença” subjacente única [5].

Por exemplo, a insônia pode intensificar a fadiga, que agrava a dificuldade de concentração, que por sua vez alimenta sentimentos de incapacidade. Esses ciclos de retroalimentação — que muitos pacientes reconhecem em suas próprias experiências — ajudam a explicar por que alguns quadros se tornam persistentes ao longo do tempo, mesmo depois de a situação que os desencadeou ter se resolvido.

Os diagnósticos continuam sendo ferramentas importantes

Apesar dessas discussões teóricas, os diagnósticos continuam tendo um papel central na prática clínica. Eles ajudam os profissionais a organizar o raciocínio clínico, orientar decisões terapêuticas e comunicar informações importantes entre equipes de saúde.

Ao mesmo tempo, a psiquiatria contemporânea tem reconhecido cada vez mais que as classificações são instrumentos de trabalho — construídos para ajudar a compreender a realidade clínica, mas que não necessariamente capturam toda a complexidade da experiência humana. Como Fried (2026) argumenta, se os diagnósticos são formas de organizar uma realidade complexa e não verdades descobertas na natureza, então é fundamental desenvolver diferentes frameworks, estruturas que maximizem a utilidade para diferentes propósitos [1]. O diagnóstico é um ponto de partida, não um ponto de chegada.

Um campo em constante evolução

A forma como compreendemos os transtornos mentais mudou muito ao longo da história da psiquiatria — e provavelmente continuará mudando. Novos modelos não surgem necessariamente para substituir completamente os anteriores, mas para ampliar nossa capacidade de compreender fenômenos que são, por natureza, complexos.

Nesse sentido, o debate atual não significa que a psiquiatria esteja abandonando suas classificações. Ele indica, antes de tudo, um esforço contínuo para aprimorar a forma como descrevemos, compreendemos e cuidamos do sofrimento psíquico.

E talvez o aspecto mais importante dessa discussão seja justamente a mensagem que ela carrega para quem busca ajuda: o que importa não é o rótulo, mas a possibilidade de ser escutado na sua singularidade — de encontrar um espaço onde o sofrimento possa ser reconhecido, acolhido e cuidado.

A equipe da Clínica Blumei Psiquiatria está disponível para acolher e acompanhar cada pessoa nesse processo.

  1. Fried EI (2026). Mental Disorders as Homeostatic Property Clusters: A Narrative Review. JAMA Psychiatry. Published online March 11, 2026. doi:10.1001/jamapsychiatry.2026.0073
  2. Spiller TR, Duek O, Helmer M, Murray JD, Fielstein E, Pietrzak RH, von Kanel R, Harpaz-Rotem I (2024). Unveiling the Structure in Mental Disorder Presentations. JAMA Psychiatry. 2024;81(11):1101-1107. doi:10.1001/jamapsychiatry.2024.2047
  3. Kotov R, Krueger RF, Watson D, Achenbach TM, Althoff RR, Bagby RM, et al. (2017). The Hierarchical Taxonomy of Psychopathology (HiTOP): A Dimensional Alternative to Traditional Nosologies. Journal of Abnormal Psychology. 2017;126(4):454-477. doi:10.1037/abn0000258
  4. Insel T, Cuthbert B, Garvey M, Heinssen R, Pine DS, Quinn K, Sanislow C, Wang P (2010). Research Domain Criteria (RDoC): Toward a New Classification Framework for Research on Mental Disorders. American Journal of Psychiatry. 2010;167(7):748-751. doi:10.1176/appi.ajp.2010.09091379
  5. Borsboom D (2017). A Network Theory of Mental Disorders. World Psychiatry. 2017;16(1):5-13. doi:10.1002/wps.20375
  6. Plana-Ripoll O, Pedersen CB, Holtz Y, Benros ME, Dalsgaard S, de Jonge P, et al. (2019). Exploring Comorbidity Within Mental Disorders Among a Danish National Population. JAMA Psychiatry. 2019;76(3):259-270. doi:10.1001/jamapsychiatry.2018.3658
  7. Jablensky A (2016). Psychiatric Classifications: Validity and Utility. World Psychiatry. 2016;15(1):26-31. doi:10.1002/wps.20284
  8. First MB, Gaebel W, Maj M, Stein DJ, Sadler JZ, Schneider S, et al. (2021). An Organization- and Category-Level Comparison of Diagnostic Requirements for Mental Disorders in ICD-11 and DSM-5. World Psychiatry. 2021;20(1):34-51. doi:10.1002/wps.20825

Artigo escrito por Dra. Larissa Dall'Antonia Garbelini Pelegrino, Médica Psiquiatra especializada em Psicoterapia de Orientação Psicanalítica (CRM 168.191 SP | RQE 86.429), formada pela Faculdade de Medicina de Marília (FAMEMA). Médica Assistente e Chefe de Serviço da Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FAMEMA.

Revisado pela equipe médica da Blumei Psiquiatria.

Perguntas Frequentes

O que é o DSM-5 e para que serve?

O DSM-5 (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) é um manual diagnóstico desenvolvido pela Associação Americana de Psiquiatria. Ele descreve os transtornos mentais a partir de conjuntos de sintomas, servindo como referência para profissionais de saúde mental em todo o mundo. No Brasil, é utilizado junto com o CID-11 da Organização Mundial da Saúde.

Qual a diferença entre o DSM-5 e o CID-11?

O DSM-5 oferece descrições clínicas mais detalhadas dos transtornos mentais e é muito utilizado em pesquisa e prática clínica. O CID-11, por sua vez, é o sistema oficial de classificação da OMS, utilizado para documentação médica, atestados e registros em sistemas de saúde. Ambos se complementam na prática psiquiátrica.

O que são “conjuntos de propriedades homeostáticas” (HPC)?

É um conceito proposto por Fried (2026) na JAMA Psychiatry, adaptado da filosofia da biologia. A ideia é que os transtornos mentais, assim como as espécies biológicas, não são categorias fixas com fronteiras nítidas, mas agrupamentos de características que tendem a ocorrer juntas porque a presença de umas favorece a presença de outras. Isso ajuda a explicar por que a comorbidade é tão frequente e por que cada paciente é singular.

Por que um mesmo paciente pode receber mais de um diagnóstico psiquiátrico?

A comorbidade — presença de mais de um transtorno simultaneamente — é comum em psiquiatria. Estudos populacionais mostram que as fronteiras entre os diagnósticos são mais porosas do que os manuais sugerem. Pelo modelo HPC, isso é uma consequência natural de associações probabilísticas entre características, e não uma anomalia do sistema diagnóstico.

Essas novas classificações vão substituir o DSM e o CID?

Não necessariamente. As novas abordagens buscam ampliar a compreensão dos transtornos mentais, não eliminar as classificações existentes. O DSM e o CID continuam sendo ferramentas fundamentais para a prática clínica, enquanto modelos como o HPC, o HiTOP e o RDoC contribuem principalmente para a pesquisa e para uma visão mais atenta à singularidade de cada pessoa.