O “Banquinho de 3 Pés” da Obesidade: Entenda o Tratamento Multidisciplinar

Este texto é fruto de uma conversa enriquecedora com a Dra. Iara Alves Coelho Sganzella, realizada durante mais uma edição do nosso Café com Especialista — uma iniciativa da Clínica Blumei que promove o encontro entre profissionais de diferentes áreas para discutir temas relevantes sobre saúde mental e bem-estar.

Dra. Iara é médica cirúrgiã, especialista em cirurgia bariátrica, cirurgia do aparelho digestivo e cirurgia geral. Atua em Marília e é chefe do serviço de cirurgia bariátrica e preceptora da residência Médica em Cirurgia do Aparelho Digestivo da Faculdade de Medicina de Marília (FAMEMA).

Nesta edição, o tema central foi a obesidade — uma doença crônica, multifatorial, de difícil controle e com alta taxa de recidiva [1,2]. Isso significa que não existe uma cura definitiva, mas sim a necessidade de um cuidado contínuo e equilibrado. Para ilustrar a complexidade do tratamento, utilizamos uma analogia simples, mas poderosa: o “banquinho de 3 pés”.

O Banquinho de 3 Pés da Obesidade

Imagine que o tratamento da obesidade se apoia em um banquinho de três pés. Quando esses três pés estão firmes e equilibrados, o banquinho se mantém estável. No entanto, se um deles estiver mais curto, torto ou frágil, todo o sistema se desequilibra. O mesmo acontece com o tratamento da obesidade [7,2].

Pé 1: A Parte Orgânica

Este é o campo da atuação médica. Inclui o uso de medicações (não utilize medicamentos sem prescrição e orientação médica), acompanhamento endocrinológico e, em alguns casos, a cirurgia bariátrica [6].

É importante compreender que o corpo, muitas vezes, “resiste” à perda de peso [5]. Esse mecanismo biológico de defesa — como o conhecido efeito sanfona — faz parte de um instinto de preservação da espécie. O tratamento médico tem papel essencial para atenuar essa resposta orgânica, mas ele, por si só, não é suficiente.

Pé 2: Mudança de Estilo de Vida

Esse pilar diz respeito à alimentação equilibrada e à prática regular de atividade física. A lógica é conhecida: para perder peso, é necessário gastar mais calorias do que se consome.

Contudo, implementar e manter essas mudanças não é simples. Requer planejamento, consistência e, sobretudo, realismo. Não se trata de eliminar todos os alimentos prazerosos de uma vez, mas de fazer escolhas conscientes, sustentáveis e adaptadas à rotina da pessoa.

Pé 3: Saúde Mental

Esse é, com frequência, o primeiro pé a enfraquecer. Situações emocionais como estresse, frustração, ansiedade ou tristeza podem levar à busca de conforto na comida — especialmente em alimentos ultrapalatáveis como doces e frituras. Para entender como resistimos em buscar ajuda mesmo quando precisamos, confira nosso artigo sobre o tema.

Como reforçou Dra. Iara durante o encontro: “Cabeça ruim, o corpo padece”. Existe uma conexão direta entre saúde emocional e funcionamento do corpo, incluindo o metabolismo e o trato digestivo [3,4]. O apoio psicológico e psiquiátrico é, portanto, fundamental: seja para desenvolver estratégias de enfrentamento, seja para manejar sintomas que dificultam a adesão ao tratamento.

A Importância do Equilíbrio

O sucesso no tratamento da obesidade depende do fortalecimento e da harmonia entre esses três pilares.

Se a saúde mental está comprometida, manter uma rotina alimentar e de exercícios se torna um desafio. Se o estilo de vida saudável é abandonado, o tratamento medicamentoso ou cirúrgico perde sustentação. E, da mesma forma, se há resistência em buscar ajuda médica, os resultados ficam limitados.

Diante disso, a prioridade não deve ser a busca por soluções rápidas para reverter atrasos que uma recaída pode gerar no seu emagrecimento, mas sim uma análise para reavaliar as estratégias e ajustar as expectativas.

Lembre-se: a obesidade é uma condição crônica que entra em remissão, mas não possui uma cura definitiva. Isso exige um cuidado contínuo, atenção aos sinais do corpo e da mente e, sobretudo, um olhar compassivo e realista sobre a própria jornada, entendendo que oscilações podem ser esperadas e manejadas.

Durante a conversa com a Dra. Iara, também discutimos outros aspectos fundamentais do tratamento da obesidade, incluindo os desafios da fase inicial da dieta e o fenômeno da “abstínência alimentar”, o modo como o corpo resiste à perda de peso e o impacto da frustração e do julgamento externo no processo de emagrecimento.

Essas reflexões serão tema de futuras publicações aqui no blog. Fique atento aos próximos conteúdos dessa série especial do Café com Especialista!

Artigo escrito pela Equipe Blumei a partir da conversa durante o Café com Especialista, uma iniciativa da Clínica Blumei.

Revisado por Dra. Iara Alves Coelho Sganzella , Médica Cirúrgiã (CRM/SP 134.931 | RQE Cirurgia do Aparelho Digestivo 50.833 | RQE Cirurgia Geral 36.409), especialista em cirurgia bariátrica e tratamento multidisciplinar da obesidade.

Revisado pela equipe médica da Blumei Psiquiatria.

Referências

  1. Lancet Diabetes & Endocrinology Commission. (2025). Definition and diagnostic criteria of clinical obesity. The Lancet Diabetes & Endocrinology, 13(3):221–262. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39824205/
  2. ABESO. (2022). Diretrizes Brasileiras de Obesidade. https://abeso.org.br/diretrizes/
  3. Luppino FS, et al. (2010). Overweight, Obesity, and Depression: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Psychiatry (Arch Gen Psychiatry), 67(3):220–229. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20194822/
  4. Asadi S, et al. (2022). Obesity and gut–microbiota–brain axis: A narrative review. Journal of Clinical Laboratory Analysis, 36(5):e24420. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35421277/
  5. Rucker D, et al. (2023). Obesity and Set-Point Theory. StatPearls, NCBI Bookshelf. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK592402/
  6. Eisenberg D, et al. (2022). 2022 ASMBS and IFSO: Indications for Metabolic and Bariatric Surgery. Surgery for Obesity and Related Diseases, 18(12):1345–1356.
  7. Cochrane/PMC. (2019). Interventions for treating overweight or obesity in adults: an overview of systematic reviews. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6517194/

Perguntas Frequentes sobre o Tratamento da Obesidade

O que é a analogia do “banquinho de 3 pés” no tratamento da obesidade?

É uma metáfora que ajuda a compreender o tratamento da obesidade como algo sustentado por três pilares igualmente importantes: a parte orgânica (médica), a mudança de estilo de vida (hábitos) e a saúde mental. Assim como um banquinho precisa de seus três pés para se manter estável, o tratamento precisa do equilíbrio entre essas áreas para ser bem-sucedido.

Quais são os três “pés” do tratamento da obesidade?

1. Parte orgânica (medicações, acompanhamento médico, cirurgia); 2. Estilo de vida (alimentação e exercício físico); 3. Saúde mental (apoio psicológico e psiquiátrico).

Por que a saúde mental é considerada um pilar essencial no tratamento da obesidade?

Porque transtornos emocionais como ansiedade, compulsão, estresse ou depressão podem dificultar diretamente a adesão à dieta, à atividade física e ao tratamento médico. Muitas vezes, é o primeiro pilar a “bambear”, comprometendo os demais.

Qual a diferença entre obesidade “em remissão” e “curada”?

A obesidade não tem cura definitiva, mas pode entrar em remissão — estado no qual os parâmetros clínicos se normalizam com tratamento adequado. Isso significa que o acompanhamento contínuo é essencial, mesmo após a perda de peso.

Em que momento a cirurgia bariátrica é indicada?

A cirurgia bariátrica é indicada para casos específicos, conforme critérios estabelecidos pelas sociedades médicas (ASMBS/SBCBM). A avaliação é individualizada e deve ser feita por equipe multidisciplinar especializada.