Quando os sentimentos humanos se tornam transtornos?

O que é um transtorno psiquiátrico?

Imagine o seguinte cenário: você está fazendo uma trilha, no meio da mata, quando ouve o estalo de um galho. Ao olhar na direção do barulho, se depara com uma onça pintada. De repente, seu coração dispara, as pupilas dilatam, o rosto fica pálido, a respiração fica rápida e curta, os pelos do braço se arrepiam. Essa é a descrição de uma emoção: uma resposta física e automática do corpo a um estímulo. Um conjunto de reações químicas e impulsos elétricos, involuntários e, na maior parte das vezes, inevitáveis.

Emoções versus sentimentos: entendendo a diferença

Depois de fugir da onça, ao contar a história para os amigos, você descreve essa sensação como medo. Os amigos, ao ouvir o relato, conseguem imaginar como você se sentiu ou até como eles próprios reagiriam na mesma situação. Esse exercício mental, essa forma de representar aquilo que sentimos, é o que chamamos de sentimento. O sentimento é um processo cognitivo: um nome que damos às sensações físicas e emocionais que experimentamos ou imaginamos experimentar.

Por exemplo, quando pensamos em alguém que amamos e que está distante ou já faleceu, é comum sentirmos um aperto no peito, um nó na garganta, o olhar marejado e, suspirando, dizemos: "Que saudades!". É a tentativa do cérebro de nomear aquilo que nos toca.

Para facilitar a compreensão, podemos dizer que emoção é o conjunto de reações físicas desencadeadas por um estímulo, enquanto sentimento é o nome que damos a essas reações.

O universo dos sentimentos humanos e sua função adaptativa

Assim, somos apresentados ao vasto universo do coração humano: medo, saudades, alegria, orgulho, raiva, tristeza, alívio, ansiedade, nojo, culpa, arrependimento, empolgação, ressentimento, inveja, compaixão e tantos outros. Alguns sentimentos gostamos de sentir, como o amor e a alegria. Outros nem tanto, como a tristeza ou a ansiedade.

Mas até esses, que costumamos evitar, são importantes, porque nos ajudam a entender nossos afetos e a orientar nossos comportamentos e o dos que estão ao nosso redor. Sentimentos desagradáveis frequentemente têm uma função evolutiva e adaptativa crucial para nossa sobrevivência e adaptação social.

A linha tênue: quando sentimentos normais se transformam em transtornos

Mas afinal, quando esses sentimentos se transformam em transtornos? Vamos usar a ansiedade como exemplo. Ansiedade é um sentimento que experimentamos de forma desconfortável, como um tipo de angústia ou apreensão diante de cenários futuros que nos causam medo, preocupação ou expectativa. Essa inquietação, embora incômoda, tem uma função importante: é o nosso corpo nos dizendo que precisamos agir. O medo de que algo ruim aconteça no futuro nos impulsiona a resolver problemas no presente, inspira prudência, evita a procrastinação e ajuda a definir prioridades. Ou seja, na medida certa, mesmo sendo desconfortável, a ansiedade tem um papel útil.

O problema surge quando ela foge do controle. Por exemplo: uma pessoa que sente a necessidade de trancar e destrancar a porta inúmeras vezes para impedir que algo ruim aconteça, e passa horas do dia realizando rituais compulsivos para aliviar a angústia causada por pensamentos intrusivos e exagerados, pode estar sofrendo de um transtorno ansioso, o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).

Exemplos de transtornos ansiosos e suas manifestações

Transtorno de Pânico

Outro exemplo é aquele indivíduo que, sem qualquer motivo aparente, começa a ter crises súbitas e frequentes de dor no peito, falta de ar, suor excessivo, tremores por todo o corpo e uma sensação intensa de que vai morrer, enlouquecer ou que algo terrível está prestes a acontecer. Com o tempo, o medo de ter novas crises faz com que essa pessoa evite sair de casa e viva em alerta constante. Neste caso, estamos possivelmente diante do Transtorno do Pânico.

Transtorno de Ansiedade Generalizada

Há ainda quem passe meses dominado por pensamentos negativos, preocupado o tempo todo com tudo o que pode dar errado: "E se eu for demitido? Como vou sustentar minha família? Como vou pagar as contas?", "E se alguém da minha família adoecer ou morrer?", ou ainda "Eu preciso dar conta de tudo isso até amanhã... e se não der tempo? E se eu falhar?". Mesmo em casa, em momentos que deveriam ser de descanso, a mente não para. A inquietação é constante, o sono não vem, o corpo está sempre tenso, a pessoa vive em estado de alerta. Esse quadro é típico do Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG).

Os principais sinais de alerta: quando buscar ajuda

De forma geral, sentimentos se tornam transtornos quando passam a ser:

  • Frequentes: ocorrem quase diariamente
  • Intensos: têm magnitude desproporcional aos eventos desencadeantes
  • Desproporcionais: a reação emocional é excessiva para a situação
  • Sem causa aparente: surgem sem motivo claro ou em situações onde não seriam esperados
  • Persistentes: se prolongam por semanas ou meses
  • Causadores de prejuízo funcional: interferem nas atividades diárias e na qualidade de vida

Quando um sentimento negativo ocupa boa parte do dia, se prolonga por semanas ou meses, e começa a interferir no sono, no apetite, na energia, no humor, na capacidade de concentração, no trabalho, nos estudos, nas relações sociais e no cuidado consigo e com os outros, ele deixa de ser apenas um estado emocional e passa a ser um sinal de adoecimento.

A importância do diagnóstico e tratamento precoces

Nesses casos, é importante reconhecer que o sentimento saiu do controle e buscar ajuda psiquiátrica. Quanto antes o transtorno for identificado e tratado, maiores as chances de retomarmos o equilíbrio emocional e a qualidade de vida.

O sofrimento psíquico é real e não deve ser minimizado. Muitas vezes, a demora em procurar ajuda se deve ao estigma ainda associado aos transtornos mentais ou à errônea crença de que devemos "ser fortes" e lidar sozinhos com nossos problemas emocionais. Entretanto, assim como não hesitaríamos em consultar um médico para tratar uma doença física, devemos ter a mesma atitude quando nossos sentimentos começam a nos adoecer.

Artigo escrito por Dr. André Belluci Villani, médico psiquiatra (CRM 218.426 | RQE 124.128) com formação pela FAMEMA e residência médica em Psiquiatria pela FAMECA/UNIFIPA.

Revisado pela equipe médica da Blumei Psiquiatria.

Perguntas frequentes sobre o assunto

Como diferenciar ansiedade normal de um transtorno de ansiedade?

A ansiedade normal é uma resposta adaptativa a situações específicas, proporcionada à ameaça, temporária e que não impede a realização de atividades cotidianas. Já um transtorno de ansiedade se caracteriza por sintomas intensos e desproporcionais, sem causa aparente ou que persistem por semanas/meses, prejudicando significativamente a qualidade de vida e o funcionamento social, profissional ou acadêmico da pessoa.

Quais são os principais sintomas físicos de um transtorno de ansiedade?

Os principais sintomas físicos incluem: taquicardia (coração acelerado), sudorese excessiva, tremores, tensão muscular, sensação de falta de ar, tontura, formigamentos, ondas de calor ou frio, boca seca, náuseas e alterações no sono. Durante crises de ansiedade, a pessoa pode experimentar sintomas que se assemelham a um ataque cardíaco, como dor no peito e sensação de morte iminente.

Quando devo procurar ajuda profissional para sintomas emocionais?

Você deve buscar ajuda quando os sintomas: (1) persistem por várias semanas sem melhora, (2) interferem significativamente na sua rotina diária, trabalho ou relacionamentos, (3) causam intenso sofrimento, (4) levam a comportamentos de esquiva ou isolamento social, (5) estão associados a pensamentos de morte ou suicídio, ou (6) envolvem uso de álcool ou drogas para lidar com as emoções. Quanto mais cedo for realizado o diagnóstico e iniciado o tratamento, melhores são as chances de recuperação.

Quais são os tratamentos disponíveis para transtornos de ansiedade?

Os tratamentos incluem: (1) Psicoterapia - especialmente a terapia cognitivo-comportamental, que ajuda a identificar e modificar padrões de pensamento e comportamento; (2) Medicamentos - como antidepressivos, ansiolíticos e outros psicofármacos prescritos por médicos psiquiatras; (3) Técnicas de relaxamento e mindfulness; (4) Mudanças no estilo de vida, incluindo atividade física regular, alimentação equilibrada, sono adequado e redução do consumo de cafeína e álcool. O tratamento ideal geralmente envolve uma combinação dessas abordagens, personalizada para cada pessoa.

É possível prevenir transtornos mentais?

Embora não seja possível garantir a prevenção total, algumas práticas podem reduzir o risco: (1) Manter relacionamentos saudáveis e uma rede de apoio social; (2) Praticar o autocuidado, incluindo exercícios físicos regulares, alimentação equilibrada e sono adequado; (3) Desenvolver habilidades de enfrentamento e resiliência; (4) Controlar níveis de estresse com técnicas de relaxamento ou mindfulness; (5) Evitar uso abusivo de álcool, drogas e cafeína; (6) Buscar auxílio profissional aos primeiros sinais de sofrimento psicológico persistente. Cuidar preventivamente da saúde mental é tão importante quanto cuidar da saúde física.